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HOMENAGEM A UM BASCO SEMEADOR

  • Foto do escritor: Ana Luiza  Panyagua Etchalus
    Ana Luiza Panyagua Etchalus
  • há 3 dias
  • 8 min de leitura

Nota da autora

A matéria abaixo foi originalmente publicada no blog que mantínhamos junto à Casa Basca do Rio Grande do Sul, em 2017. Revisito-a agora, e a revejo para publicação em meu próprio blog, em homenagem ao professor Mikel Ezkerro, falecido ontem em Buenos Aires, Argentina.

Mikel foi um dos primeiros amigos bascos que tive, um incansável semeador da cultura e da memória basca na diáspora sul-americana — e um generoso divulgador do trabalho que construímos em torno da nossa comunidade aqui no Brasil, a partir da edição de meu livro Alma Basca. Que estas palavras, escritas por ele mesmo há oito anos, sirvam de tributo à sua vida dedicada a semear.

Eskerrik asko, professor. Que descanse em paz.

 

O basco blogueiro e semeador

Foi em Buenos Aires, numa final da manhã quente de dezembro do ano de 2012, que conheci o professor Mikel Ezkerro. O lugar marcado era a sede da Laurak Bat(1), o centro basco da diáspora mais antigo do mundo — fundada em 1877 —, para onde me dirigi muito animada juntamente com duas primas, uma basca argentina e Etchalus como eu; e a outra basca de Iparralde(2), Hastoy. Havíamos planejado um encontro intercontinental de primas bascas na capital dos hermanos naquele verão.

Eu conhecia o professor apenas através de fotografias e de nossos bate papos através da rede social. Esperava ansiosa em frente ao centro basco que, para nosso desalento, estava com as portas fechadas naquele dia de feriado.

Esperamos por mais alguns minutos até surgir, de repente, como se saído de algum filme “noir”, a figura professoral, tradicional, quase mítica. Do alto de seus quase dois metros de altura, segundo ele, 1,97 m “cuando era joven”, o professor caminhava em nossa direção com passos largos e calmos e carregando no seu braço um guarda-chuva que, alguns anos mais tarde, soube tratar-se do guarda-chuva de seu falecido pai, usado de quando em vez também para ajudá-lo como apoio.

Frustrado o encontro na Laurak Bat, fomos lideradas pelo professor até uma cafeteria próxima, onde passamos a ser transportadas no tempo e na história de nossos antepassados pela sua narrativa.

Desde então tive vários contatos pessoais com Mikel Ezkerro, num dos quais tive a chance de retornar à Laurak Bat e saborear um delicioso almoço basco. Nossos sucessivos contatos acabaram estreitando um vínculo mais pessoal, uma fraterna amizade que, além do mais, é adornada por laços estreitos com amigos comuns.

Decidida a reativar o trabalho de entrevistas, que entendo ser uma forma dinâmica e afetiva de alimentar o nosso blog, comentei com o Alejandro Arganaraz, com quem divido modestamente o trabalho de desenvolver o nosso maior meio de comunicação, a ideia que eu tinha de entrevistar o Professor Mikel Ezkerro.

E a entrevista estava em mente não somente porque Mikel Ezkerro foi um dos primeiros amigos bascos que tive no facebook e que, estimulado pela descoberta do desabrochar de uma comunidade de bascos descendentes no sul do Brasil, passou a divulgar meu livro e posteriormente acompanhar e divulgar as atividades de nossa comunidade. Pensei que a entrevista viria bem a calhar porque o professor Mikel Ezkerro é esta figura icônica da cultura basca, especialmente na diáspora sul-americana, um homem que contribui de forma permanente para fomentar, estimular e marcar o legado de seus ancestrais. E contribui com uma avidez e com tamanha qualidade, que há poucos meses criou um blog.

Este, aliás, seria o mote inicial da matéria, pensava eu, pois além de manejar muito bem a rede social, o professor ainda apresenta mais esta capacidade de mobilização: um blog. Afinal, um quase octogenário virar um blogueiro, cá entre nós, é fato que por si só deve ser celebrado, um estímulo a tantos idosos que tanto têm a contribuir neste mundo onde a expectativa de vida vem num crescendo.

E como todos os bascos sabem, uma vez posta a ideia na cabeça, impossível não operacionalizar, ou como diz o professor: “Cuando a un Vasco se le pone algo en el buru o cabeza, LO LOGRA”.

Assim foi que, ato contínuo, fiz contato com o professor Ezkerro que, sempre elegante e com a rapidez de quem, aos 79 anos, não perde seu tempo, me respondeu positivamente e, também com uma impressionante agilidade, me enviou as respostas às perguntas que eu, dublê de entrevistadora, me dispus a sugerir.

Pensava em redirecionar as respostas, inseri-las no contexto de uma matéria, mas concluí que elas falam por si e se prestam para o objetivo maior que é, sem dúvida, homenagear o professor e divulgar seu incansável trabalho.

Então mudei o “rumo da prosa” e resolvi apenas transcrever a entrevista feita com o professor Mikel Ezkerro, o blogueiro octogenário semeador da cultura basca. Eskerrik asko, professor Mikel Ezkerro eta zorionak!!!!

Entrevista

CBRGS — Pode contar um pouco de sua história pessoal? Onde nasceu, onde nasceram seus pais, quantos irmãos, sua formação, casamento, filhos, netos

ME — Nasci em Rawson, um pequeno povoado da província de Buenos Aires, a uns 200 km da Capital Federal. Meu pai era argentino, minha mãe era basca, todos os meus avós paternos e maternos eram bascos. Fui filho único. Fiz meus estudos primários em Bilbao, País Basco, e os estudos secundários em Buenos Aires, em ambos os casos com os Padres Jesuítas, ordem religiosa fundada pelo basco Santo Inácio de Loyola. Minha formação foi sempre voltada ao estudo das Humanidades — História, Geografia, Filosofia, Literatura, etc. Casado com Susana Aramendia. Dois filhos, Maite e Julián. Três netos.

CBRGS — Qual foi sua trajetória profissional ao longo da vida?

ME — Minha formação profissional foi o estudo da História Argentina e Europeia, e dentro dela, especialmente a História Basca, fundamentalmente a História Moderna e Contemporânea de Euskal Herria. Como meio de vida econômico, trabalhei como Gerente de Vendas numa editora em Buenos Aires que comercializava revistas em nível de Argentina e outros países da América Latina.

CBRGS — Desde quando começou a se interessar por temas bascos?

Minha mãe, em Bilbao, onde vivi desde quando tinha 1 ano de vida até os 12 anos, foi a primeira pessoa que, desde que tenho consciência, semeou em mim o sentimento e o amor pelo que é basco, enquanto, paralelamente, meu pai fazia o mesmo com o sentimento nacional pela minha Pátria Argentina — desde pequeno estudava em Bilbao História e Geografia da Argentina. Desde os 15 anos comecei a estudar História Basca, e de forma muito especial o período que vai de 1789, Revolução Francesa, até a atualidade.

4. Quais foram as atividades que desenvolveu exclusivamente relacionadas ao tema basco?

Ao mesmo tempo, comecei a conhecer e dialogar em Buenos Aires com todas as personalidades bascas do exílio da guerra de 1936, pessoas muito relevantes no âmbito político e cultural, às quais estarei eternamente grato por todos os ensinamentos e experiências recebidas. A partir de 1963 comecei a dar palestras nos Centros Bascos, trabalho ininterrupto até o presente. Em 1966 comecei a escrever no mensário Eusko-Lurra — Terra Basca, publicado em Buenos Aires, o que fiz até seu desaparecimento em 1975, com o falecimento do ditador Franco. Nessa publicação, escrevi aproximadamente 200 artigos, com diferentes pseudônimos. Anos mais tarde fui nomeado membro do já extinto Instituto Americano de Estudos Bascos, e sou membro do Centro de Estudos Históricos e do Nacionalismo Basco Arturo Campión. No âmbito institucional, fui, na época, Responsável pela Área de Cultura do Centro Basco Laurak Bat de Buenos Aires, e ocupei o mesmo cargo em nível nacional argentino na Federação de Entidades Bascas da Argentina (FEVA). Autor da História do Centro Basco Laurak Bat de Buenos Aires, obra editada pelo Governo Basco na Coleção Urazandi. Dei palestras em 90 Centros Bascos da Argentina, no Uruguai, no Brasil e em Euskal Herria.

CBRGS — Que idade o senhor tem?

Em maio completarei 79 anos.

CBRGS — O senhor tem um grande rendimento nas redes sociais, ao menos sua atividade no Facebook é muito intensa. Atua em mais alguma rede social, como Twitter ou Instagram?

6. Praticamente só utilizo a rede social Facebook.

CBRGS — Recentemente o senhor criou um blog. Como surgiu a ideia, e que tipo de ajuda tem no desenvolvimento dessa ferramenta? Quantas horas por dia dedica a essa atividade? Qual o principal objetivo com o blog?

ME — Há pouco tempo decidi criar um blog pessoal, que é bem simples, exclusivamente para escrever artigos sobre temática basca, aceitando comentários. A ideia que me moveu se reflete no nome: Ereintza, que em euskera, a língua basca, significa “o Semeador”.

CBRGS — Há um uso crescente das redes sociais entre pessoas mais velhas. Como o senhor vê esse novo movimento da comunicação?

ME — Acho interessante e com muito futuro, embora fale a partir da minha experiência meramente pessoal — tenho tido dificuldade, e ainda tenho, para entender e conseguir aplicar, empregar as variadas técnicas que a informática oferece. Confesso pessoalmente que desconheço, e que utilizo, uma porcentagem muito reduzida delas, o que não impede que eu reconheça que hoje, e ainda mais no futuro, seu emprego será quase imprescindível e muito valioso em muitas esferas da vida.

CBRGS — Quais foram suas experiências com os bascos no Brasil, e a mensagem que deseja expressar à diáspora basca em nosso país?

ME — Minhas experiências no Brasil, para ser mais concreto no belo Estado do Rio Grande do Sul, onde estive em Porto Alegre e Pelotas, foram uma surpresa muito feliz, ao conhecer e conviver com mulheres e homens dotados de um sincero amor pela terra basca. A verdade é que eu desconhecia quase por completo o que é basco no Brasil; havia lido, sim, o livro “Alma Basca”, que foi como um farol de luz que iluminou a escuridão que eu tinha sobre o tema.

Em Porto Alegre e Pelotas, conheci filhos, netos, bisnetos de bascos que me fizeram sentir, com palavras e gestos, o são orgulho que sentiam por suas raízes, a busca em si mesmos de sua identidade étnica, etc. Também pude comprovar um fenômeno que já conhecia, porque o havia percebido na Argentina e no Uruguai: que no Rio Grande do Sul havia e há um forte sentimento basco, um sincero amor pelo país de seus antepassados, por seus usos e costumes, e ao mesmo tempo um desconhecimento inocultável sobre aspectos básicos do Povo Basco.

Esse desconhecimento pode ser superado com a Informação e a Formação Vasquista, adquirindo-se assim o Conhecimento. Agora bem, se não existir um Sentimento Basco prévio, nada duradouro poderia se realizar.

Mais que uma mensagem, eu chamaria de uma Sugestão de um argentino consciente de suas raízes bascas.

Que cada mulher, cada homem do Estado do Rio Grande do Sul, decida voluntariamente, a partir do Sentimento que já possui em seu coração, o Conhecimento naquele ou naqueles temas que o atraiam — o Euskera, a língua basca, a História de sua Família, seus Sobrenomes, a Gastronomia, a História, a Geografia, a Música, a Pintura, o Cinema, o Esporte, etc., etc.

Tudo soma, para depois multiplicar, e evitar sempre o subtrair e o dividir.

A experiência me leva a afirmar que a Euskal Etxea, a Casa Basca, o Centro Basco, é a ferramenta mais idônea para viver e difundir a Cultura Basca entre os filhos, netos, bisnetos de bascos.

Trabalhar sem pressa, mas sem pausa.

Quando um basco põe algo na cabeça, ele consegue.

Eu sei, irmãs e irmãos do Rio Grande do Sul, que vós sois bascos!!!

Um fraterno abraço, desde a Argentina.

Notas

(1) Laurak Bat significa em euskera “as quatro em uma”, em referência às quatro províncias bascas situadas ao sul dos Pirineus, quais sejam: Bizkaia, Álava, Gipuzkoa e Navarra.

(2) Iparralde significa “país basco do norte”, onde estão situadas as províncias bascas de Laburdi, Baixa Navarra e La Soule.

 
 
 

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Ana Luiza Panyagua Etchalus

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